Pages

domingo, 19 de novembro de 2017

Jampa, "eu amei te ver, eu amei te ver!"



Não faz tanto tempo que voltei de João Pessoa - Jampa, para os íntimos - e já estou com vontade de voltar. Sinto falta de tomar água de coco todo dia (cada coco custava R$ 2 e, na barraca onde eu comprava, três cocos saíam por R$ 5; em São Paulo cada coco custa R$ 5) e caminhar na praia depois que o sol baixava, ou seja, a partir das 17h. O sol das 10h às 16h é cruel, então, sempre que podia, ficava jogada na cama dormindo ou lendo com a janela aberta e o ventilador ligado depois do almoço. 

Essa viagem me fez perceber que provavelmente conseguiria abrir mão de São Paulo para viver num lugar menos estressante. A vida cultural frenética me faria falta, é claro, mas daria para ser feliz da mesma forma. Eu não ficaria enlouquecida com tantas exposições, eventos culturais e estreias de filmes que me interessam, mas teria muito mais tempo para ler numa rede na varanda, por exemplo.

Visitei vários lugares turísticos maravilhosos e senti falta de ir a lugares mais frequentados por locais, por isso quero/ preciso voltar! Espero que consiga fazer isso no ano que vem.

Uma curiosidade: por ser o lugar mais oriental das Américas, o sol nasce primeiro lá. Às 4h30 da manhã já começava a amanhecer (!!). Me senti um pouco no verão da Islândia.

Essa viagem continua em outro post.


Mingei, curta-metragem e debate


Nesse sábado fui assistir ao curta-metragem documental Mingei - Em busca do artesanato popular do Japão na Unibes Cultural, um centro cultural que fica literalmente ao lado da estação de metrô Sumaré, e a sessão foi seguida de um bate-papo com a pesquisadora Silvia Sasaoka e com o diretor Rica Saito.

Como voltei a estudar japonês, meu interesse por cultura japonesa (e por coisas que nipo-brasileiros andam fazendo por aqui) está ainda maior, então fui conferir. E pelo visto não era a única interessada, pois a sessão lotou.

O curta de 25 minutos faz um recorte de alguns tipos de artesanato popular (mingei = minshu [povo] + kogei [artesanato]) no Japão e foi retirado de filmagens praticamente amadoras e entrevistas que Silvia Sasaoka fez com mestres artesãos em sua viagem ao Japão em 2002. O interessante é que ela viajou por várias partes do país e pôde descobrir um Japão diferente do que se vê normalmente na mídia. A região de Okinawa me pareceu interessante por ter influência de várias culturas (China, Coreia e Indonésia).

Foi bom descobrir esse tipo de arte e também triste constatar que o artesanato popular está rareando, provavelmente no mundo inteiro, porque os produtos são cada vez mais feitos em escala industrial, muitas vezes na China, por um preço muito menor.

Para quem se interessar: há mais informações no site da Japan Foundation e o teaser do curta pode ser visto aqui (o diretor e a pesquisadora pretendem lançar um documentário que talvez se chame "As quatro ilhas do artesanato"; eles e o produtor executivo buscaram patrocínio por cinco anos, mas não conseguiram).


Observação: toda vez que vejo trabalhos de pessoas tentando resgatar partes da própria origem e entender um pouco mais sobre a cultura de onde vieram, tenho uma sensação estranha e ao mesmo tempo familiar. Às vezes, chego a algumas conclusões sobre mim mesma. Hoje concluí que queria voltar no tempo, ter aprendido japonês logo que nasci para ter interagido mais e melhor com meus avós; talvez meu avô paterno, o mais "intelectual" dos quatro avós japoneses, pudesse ter me proporcionado várias conversas enriquecedoras. Até onde sei, ele foi o único dos meus avós a vir para o Brasil por vontade própria, aos 18/19 anos, e me pergunto por que raios ele fez isso se tinha uma vida confortável no Japão - diferente dos outros avós, que vieram mais por necessidade. Tenho muitas perguntas agora e, se quiser respostas, precisarei entrevistar meu pai e meus tios mais velhos. Talvez não haja muito tempo. Preciso me apressar. Talvez, no futuro, eu consiga transformar isso tudo em alguma coisa que valha a pena para mim e para outras pessoas.


sábado, 23 de setembro de 2017

Viajar, escrever. Escrever, viajar.


Nesse momento eu deveria estar fazendo as unhas para ir ao casamento de uma amiga hoje à tarde, mas queria escrever um pouco sobre o curso de Travel Writer que fiz essa semana, antes que a sensação de "encantamento" passe.

Eu e a Tati fizemos o curso de manhã (de segunda a sexta, das 9h às 12h30 e sexta das 9h às 13h) e não à noite (se não me engano, das 19h às 22h30). Eu tinha pensado em fazer o curso noturno porque achava que não ia ter muita gente na turma da manhã, portanto, menos chances de interagir com pessoas interessantes - que engano! Tinha quase 20 pessoas na turma, e pessoas muito legais. Graças à Tati, fui direcionada para a turma certa.

Na segunda, perdi a hora e cheguei umas 9h20, quando todos já tinham se apresentado, mas ao longo da semana fui conhecendo melhor algumas pessoas. Nesse dia recebi um material de boas-vindas (uma pasta, crachá, bloco de notas, caneta e caderninho de anotações).

Nesse primeiro dia, o Zizo (com quem eu e a Tati fizemos o MBA em Book Publishing - aleluia, o curso chegou ao fim!) falou sobre a cultura viajante, contou umas histórias das viagens dele, deu dicas de como planejar uma viagem com o propósito de escrever sobre ela, dicas de escrita e escrevemos uma sinopse de um livro fictício de um relato de viagem escrito por nós, que depois foi avaliada por um colega. 

Na terça, o enfoque foi para textos narrativos, com vários exemplos de livros, e o exercício foi desenvolvermos a história da sinopse. 

Na quarta, aprendemos mais sobre textos ilustrativos, ou seja, matérias para jornais e revistas e, com o feedback do Zizo sobre o texto entregue na aula anterior, reescrevemos/ melhoramos a narrativa. 

Na quinta, a aula foi sobre textos informativos, próprios de guias de viagens e de alguns blogs de viagem, e nos foi dada a missão de escrevermos um "guia" sobre algum bairro para um certo público-alvo a ser definido por cada grupo, sendo que o grupo foi predeterminado pelo Zizo. Fiquei com o Carlos e com a Laís.

O Carlos, de Minas (havia pessoas de vários lugares do Brasil na turma, até uma de Manaus!), sugeriu fazermos um guia sobre a Liberdade. Gostei da ideia, e a Laís também topou. Eu e o Carlos combinamos de nos encontrar na Liberdade dali a algumas horas para fotografarmos e coletarmos informações para o nosso trabalho. A Laís tinha uma consulta médica, por isso ela não foi. Fiquei encarregada de ser a "editora-chefe" e juntar os textos (e fotos) de nós três, o que consegui fazer de madrugada.

Ainda na quinta, cada um ganhou um guia do Norte da Europa (que aparece na foto). Fiquei feliz, talvez seja o universo mandando um sinal de que as coisas vão ficar bem, e que talvez eu deva me planejar para visitar o norte da Europa, como a Islândia e a Groenlândia, como fez o Walter Mitty do filme sobre o qual quero escrever em breve.

Na sexta, o Zizo deu um feedback geral para a turma sobre os textos que escrevemos e um feedback específico para cada um por escrito (gostei muito de ter esse feedback individualizado), depois os grupos apresentamos os trabalhos, o Zizo tirou uma selfie, a turma comprou os livros da editora O Viajante com desconto - comprei o guia do Uruguai (que aparece na foto), já que ano que vem estarei em Porto Alegre - e fomos almoçar em um restaurante perto da Casa Educação, na Vila Madalena, onde o curso aconteceu.

O curso foi muito legal porque, além de aprender mais sobre algo que me interessa, pude conhecer pessoas que estão buscando alternativas para viverem mais, melhor e mais felizes. Vi que não estou sozinha nessa busca por equilíbrio e concluí, de novo, que não posso me deixar dominar pela angústia. Preciso confiar nos meus instintos e nem sempre ouvir meu lado racional. Talvez seja autodestrutivo ir pelo caminho que todo mundo vai, afinal, o que é bom para essas pessoas (prestar concursos públicos? ter filhos? me matar de trabalhar para comprar um apartamento?) pode não fazer sentido para mim. Talvez eu chegue aonde quero chegar (no Caminho do Meio?) por rotas não planejadas - E TUDO BEM. Preciso acreditar que consigo, porque não acreditar pode ser o primeiro passo para falhar.


Para se ter ideia do tanto que gostei das pessoas que aparecem na foto comigo, me ofereci para fazer um grupo para a gente no WhatsApp - um fato inédito até então. Sério.

Agora preciso ir. Preciso tomar banho e me arrumar para o casamento.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Ruídos mentais no vazio



Os dias andam meio bagunçados. Preciso resolver várias coisas chatas de ordem prática (ir à Eletropaulo, ir à imobiliária, revisar livros que estou devendo, marcar consulta com a médica, com a dentista, solicitar um recurso num órgão burocrático, organizar livros, me desfazer dos excessos) e, em meio a isso, ruídos mentais.

Sair do automático está sendo um processo estranho. Não sentir cansaço o tempo todo, uma alegria. Não precisar mais acordar às 5h30 da manhã para ir trabalhar, um alívio. E ter tempo para pensar, um luxo perturbador.

De tempos em tempos me questiono se os caminhos que estou tomando fazem sentido; é como se eu precisasse peneirar tudo e decidir do que preciso abrir mão e o que preciso manter para continuar sendo eu mesma. Estou passando por essa fase agora, de novo, e tentando desembaraçar os ruídos.

Olho em volta e me pergunto se as pessoas estão onde estão porque escolheram estar ali ou porque se deixaram levar por pais, amigos, professores, outras pessoas (razoáveis ou não), situações, preguiça ou por uma promessa de felicidade. Será que são felizes? Estão vivendo? Estão sentindo? Ou apenas se deixando levar? Será que estão aproveitando todo o potencial que têm? Se pudessem voltar no tempo, fariam as mesmas escolhas pessoais e profissionais? Estão perdendo tempo/ vida? Os objetivos traçados no passado foram alcançados? Serão alcançados algum dia? Será que se arrependem do que fizeram? Do que não fizeram? Ainda dá tempo de mudar a rota?

Penso com carinho em várias pessoas que conheci e nas escolhas que fizeram. No dentista que ia escrever um livro inovador para sua área; na vizinha que queria ser jornalista e que não se importaria em ser enviada para cobrir guerras e desastres; em uma amiga virtual que queria ser escritora; em um colega que queria ser desenhista, em outro que queria ser pai; em um amigo que queria ser uma referência como designer; em uma garota que não sabia bem o que queria, mas que eu achava que tinha potencial para ser o que quisesse (na verdade, conheço várias garotas assim, incríveis); em outra que queria ser atriz, em outra que queria ser fotógrafa de guerra... Não chegaram lá. E talvez nunca cheguem porque tomaram outros rumo e agora têm outras prioridades.

É perturbador pensar que as decisões que vou tomar agora vão ecoar no futuro, porque não tem como ser diferente. Tenho medo de não ser "assertiva". Me pergunto se ao abrir mão de coisas que adoro e nas quais acredito e priorizar coisas de ordem prática (nas quais tendo a ser bem ruim) estarei mutilando a minha essência. E em como essa história pode acabar. (Comigo virando um zumbi ou uma autômata, talvez?)

Mas hoje tomei a decisão de não me angustiar mais com o futuro e, ao mesmo tempo, estabelecer prioridades, com foco no que gosto e acredito, e me mover nessa direção. Talvez seja um começo para não perder a minha essência e nem me perder. Talvez eu acabe chegando lá. Seja "lá" onde for.


sexta-feira, 1 de setembro de 2017

O Afeganistão é logo ali

Uma vez a Tati disse que nossos interesses sempre são desencadeados, em algum momento, por algo externo a nós, que eles não nascem "do nada". Nunca tinha parado para pensar nisso, mas concordo e vou além: é provável que nosso interesse por coisas (ou pessoas) específicas tenha a ver com nossa personalidade inata e esteja latente, só aguardando um gatilho para dar as caras, tipo um "tapa na pantera" (alguma coisa, , e a pantera desperta - e nunca mais morre). Só isso explica por que cada um tem seus próprios interesses e paixões.

Tenho muitos, quase infinitos, interesses, entre eles, o Paquistão - provavelmente despertado quando comecei a ler notícias sobre o Talibã e a biografia da Malala (que é paquistanesa, mas também sofreu quando o Talibã ocupou seu país) há alguns anos, com o "agravante" de eu ter MUITO interesse pelo Irã, que fica lá perto.

Voltando ao Afeganistão, essa semana li Mulheres de Cabul, da fotógrafa inglesa Harriet Logan, além de ter visto três filmes relacionados a esse país, e gostaria de compartilhar.



Nesse livro, há fotos e vários relatos de mulheres e meninas afegãs em duas épocas em que a autora esteve em Cabul: primeiro em 1997, um pouco depois de o regime do Talibã (movimento fundamentalista islâmico) ter tomado o poder, e depois em 2001, quando o regime chegou ao fim, sendo que ela conseguiu reencontrar algumas das mulheres fotografadas em sua visita anterior.

Antes da chegada do Talibã, Cabul era um lugar bastante ocidentalizado e moderno

Os relatos, em geral, são muito angustiantes, pois algumas mulheres não conseguiam ter esperança de uma vida melhor, mesmo após a derrocada dos talibãs.

Durante o regime do Talibã no Afeganistão (entre 1996 e 2001), as mulheres não podiam mais trabalhar, mas muitas precisavam dar um jeito de alimentar os filhos, pois em várias famílias o pai havia sido assassinado; precisavam se cobrir dos pés a cabeça com a burka em lugares públicos (apanhavam dos "legisladores da moral e dos bons costumes" se houvesse mais de 1 cm de pele exposta); as meninas foram proibidas de frequentar a escola; as pessoas não podiam rir publicamente e nem soltar pipa, entre outros decretos absurdos. Li que, por não suportarem tanto sofrimento, várias mulheres se suicidaram nessa época.

Não tenho conhecimento suficiente para afirmar, mas suspeito que pobreza, ignorância e fanatismo religioso sejam a base do Talibã. Tudo isso parece muito distante, mas quando imagino o que aconteceria se todos os pobres-miseráveis-ignorantes-machistas brasileiros se juntassem e fossem guiados por algum maluco-fanático-religioso-tirano-com-delírios-de-grandeza (ou vários) e apoiados por forças militares de países com interesses econômicos no Brasil tomassem o poder, o Afeganistão parece bem mais próximo.


Mulheres de Cabul é interessante porque a autora deu voz às mulheres e meninas afegãs em vez de relatar a própria experiência como fotógrafa.



Esse livro estava na bibliografia sugerida do curso de travel writing, que eu e a Tati do início do post vamos fazer daqui a algumas semanas, ministrado pelo Zizo Asnis, nosso colega do MBA. Aliás, ando vendo vários filmes e lendo outros livros (que estão na bibliografia ou não) com protagonistas viajantes por causa desse curso.

***

Esses três filmes valem a pena para quem quer conhecer um pouco sobre o Afeganistão ou para quem gosta de cinema em geral:

A caminho de Kandahar (Safar e Ghandehar), 2001, dirigido pelo iraniano Mohsen Makhmalbaf 


Nafas, uma jornalista afegã refugiada no Canadá, recebe uma carta da irmã que permaneceu no Afeganistão e parte para encontrá-la. Precisa chegar a Kandahar antes do próximo eclipse, pois a irmã escreveu que se suicidaria nessa ocasião. No filme é possível perceber a devastação material e humana causada pelos talibãs e que as pessoas fazem de tudo sobreviver.
Minha cena preferida é quando próteses de pernas são lançadas de um avião ou helicóptero no deserto, próximo a um acampamento improvisado em que pessoas prestam ajuda humanitária, e homens que perderam a perna por terem pisado em minas começam a correr com muletas na direção delas - para mim, uma metáfora de que, apesar de todo o horror vivido pelos afegãos, apesar de o país estar sendo mutilado em todos os sentidos, as pessoas (e o país) estão tentando caminhar com as próprias pernas.


***

Mil vezes boa noite (Tusen ganger god natt), 2013, dirigido pelo norueguês Erik Poppe


Rebecca (Juliette Binoche, diva) é uma das fotógrafas de guerra mais importantes do mundo e, no momento em que o filme começa, ela está em Cabul. A cena em que Rebecca fotografa mulheres rezando e depois arrumando o colete com explosivos na mulher-bomba me pareceu inverossímil, apesar de o Talibã como um todo parecer uma ficção de horror. (Será mesmo que uma fotógrafa ocidental conseguiria se infiltrar nesse mundo e registrar essas cenas, que depois seriam reproduzidas no mundo inteiro? Ou será que o Talibã é tão exibicionista que concordaria com isso?) 
Nesse dia, Rebecca é ferida e quase morre quando a mulher se explode em um lugar movimentado. Ao voltar para casa, em algum lugar da Europa, o marido e a filha adolescente estão muito preocupados, parecem não entender e nem aceitar a vida profissional que ela escolheu e só a filha mais nova, ainda criança, não tem noção do que está acontecendo. Sendo assim, a fotógrafa precisa decidir se continua trabalhando e arriscando a vida, produzindo sua arte e reafirmando sua visão de mundo ou se começa a se dedicar a uma vida mais prosaica (sendo uma esposa e mãe mais presente, fazendo compras, cozinhando e tendo um trabalho mais "normal"). 
O filme é inquietante tanto pelas cenas nas zonas de conflito (em outro momento, ela vai com a filha para um acampamento de refugiados no Quênia) quanto porque se Rebecca abrisse mão de sua profissão, uma parte dela morreria e ela se tornaria uma sombra de si mesma.  
Li aqui que o filme é meio autobiográfico; o diretor Erik Poppe também trabalhou como fotógrafo de guerra antes de se dedicar ao cinema.

***

Baran (Baran), 2001, dirigido pelo iraniano Majid Majid
[Uma curiosidade: segundo a Wikipedia, "baran", em persa, quer dizer "chuva"]


O filme retrata a difícil realidade de refugiados afegãos em Teerã, capital do Irã, que muitas vezes trabalham ilegalmente, ganhando pouco e sem direitos, para sustentar a si e a família. 
Lateef é um jovem que trabalha na obra de um prédio, fazendo compras, cozinhando e servindo chá e, quando o patrão o troca de lugar com o recém-chegado e misterioso Rahmat, que não conseguia carregar sacos pesados direito, ele fica com raiva.
Depois de um tempo, Lateef descobre que Rahmat, "filho" de um trabalhador afegão que caíra do quarto andar da obra e quebrara a perna, na verdade, é uma garota. Como o pai dela não pode mais trabalhar, Rahmat (na verdade, seu nome é Baran) precisa fazer isso. A partir daí, Lateef sente compaixão - e talvez um pouco de paixão - por ela e passa a protegê-la e ajudá-la. 
A cena final é linda.
***

Caso seu interesse pelo Afeganistão tenha sido despertado agora - , tapa na pantera! -, bem-vindo ao clube, teremos algo em comum.

Às vezes é difícil pensar em países geograficamente longínquos ou até lembrar que eles existem e que pessoas, principalmente mulheres, estão sofrendo nesses lugares. Às vezes não dá vontade de continuar vivendo num mundo assim, mas fingir que essas pessoas são invisíveis não melhora a situação. E que bom que os livros e os filmes estão aí para nos conscientizar e nos devolver a capacidade de sentir compaixão por outros seres humanos.


quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Terça é dia de Fruta Imperfeita!


Estou há algum tempo para escrever sobre a Fruta Imperfeita, uma empresa que distribui frutas e legumes "imperfeitos" (fora do padrão exigido por grandes distribuidores, supermercados, hortifrutis etc. e que geralmente são descartados) em algumas regiões de São Paulo. Em cada dia da semana fazem entregas em bairros especificados no site e resolvi escrever sobre isso hoje, porque terça é dia de receber a cesta. 


A Yuri começou a assinar essa cesta há alguns meses, depois renovamos mais duas vezes. O plano mais longo é o bimestral (tem também a cesta avulsa e o plano mensal).


Escolhemos a cesta mista PP, de 3 kg, que vem com até 8 frutas e legumes diferentes, e como renovamos o plano bimestral, receberemos 8 caixas ao longo de dois meses. 

As frutas e legumes vêm dentro de um saco plástico e algumas frutas (mamão e banana, por exemplo) vêm embrulhados em um saco de papel:


Hoje recebemos berinjela, maracujá, mamão, banana, batata, brócolis e maçã:


Li essa matéria sobre a Fruta Imperfeita e achei interessante; é sobre a história da empresa, dos sócios, erros e acertos, a vontade de empreender e combater o desperdício de comida e também sobre a falta de estrutura para atender tanta demanda depois que a empresa foi divulgada no Catraca Livre no início de 2016. Gosto da filosofia por trás da Fruta Imperfeita; talvez, hoje em dia, esse seja um caminho possível e o mais inteligente: empresas que suprem uma demanda por produtos saudáveis, com baixo custo e que tem um impacto socioambiental.

A empresa pede para retornarmos as cestas (caixas de papelão) para que elas sejam reutilizadas. Nem sempre lembramos de deixar a caixa na portaria às terças, aí deixamos acumular algumas... mas depois devolvemos tudo de uma vez.



Pontos positivos: 

- não preciso carregar tanto peso quando vou à feira no domingo, porque sei que na terça vão chegar mais frutas e legumes para preparar as refeições da semana;
- o valor da assinatura compensa e dá um certo alívio na consciência saber que mais pessoas estão consumindo alimentos que poderiam ir para o lixo (seria muito desperdício!);
- a empresa envia algumas frutas ou legumes que eu não compraria por falta de costume ou por não saber preparar, o que me obriga a procurar novas receitas (estou com uma miniabóbora para preparar; provavelmente vai virar um purê).

Pontos negativos:
- às vezes os produtos vêm muito maduros e preciso prepará-los no mesmo dia ou, no máximo, no dia seguinte (por exemplo, o brócolis que veio hoje, já cozinhei, porque já estava começando a amarelar);
- recebo banana quase toda semana (e o gosto dessa banana não é tãããão bom, então acabo fazendo vitaminas) e sei que eventualmente vou receber alguma outra coisa com essa mesma frequência;
- algumas frutas são colhidas muito verdes e não amadurecem direito (começam a apodrecer antes de amadurecer e/ou ficam azedas, como as mangas e kiwis).


Apesar dos pontos negativos, que são bem pessoais, no geral, vale a pena assinar a cesta e fazer parte desse projeto.

Conheça mais sobre a empresa: http://frutaimperfeita.com.br


terça-feira, 29 de agosto de 2017

Sexo explícito

Quando eu tinha 8 anos, estava na segunda série em uma escola estadual perto de casa e minha mãe me levava e buscava. O trajeto durava uns quinze ou vinte minutos a pé (e talvez dez minutos de bicicleta - às vezes ela me levava de bicicleta). Metade do trajeto era uma "passarela" interrompida por pracinhas, que eram o fim de ruas sem saída dos dois lados.

(Consegui encontrar uma imagem da tal "passarela", como era chamada, no Google Maps.)


Tanto do lado direito quanto do esquerdo, havia muros pichados. E lembro de uma coisa específica que lia todo dia, mas não conseguia entender: "SEXO EXPLÍCITO". Até que um dia perguntei para minha mãe o que significava "explícito", porque intuía que "sexo" devia ser algo constrangedor. Ela me respondeu que "explícito" queria dizer "claro, que dá para entender". Hmmm. "Sexo claro". Claro que continuei sem entender. E até hoje não entendo por que alguém em sã consciência picharia "SEXO EXPLÍCITO" em um muro. Talvez fizesse sentido em São José dos Campos em 1988, assim como faz todo sentido comer coxinhas doces por lá hoje em dia; talvez pessoas fizessem sexo explícito naquele lugar específico (?), sendo a pichação, portanto, um convite, uma senha, para voyeurs, vai saber.

Lembrei desse episódio pessoal quando fui ver a peça Nu, de botas, inspirada no livro homônimo do Antonio Prata, com a Mila mês passado. Como ri muito na peça, fui ler o livro, que a Marina já tinha me indicado faz tempo. (Desconfio que a Marina gostou tanto desse livro porque até hoje tem a imaginação do Antonio Prata criança.) 



Nu, de botas reúne várias crônicas de infância narradas em primeira pessoa pelo autor, que tentava entender como as coisas funcionavam ao seu redor. E são histórias muito, muito engraçadas. "Blowing in the wind", em particular, é de chorar de rir: num fim de semana, o pai dele, o escritor Mario Prata, resolveu levar as crianças (ele, sua irmã e sua meia-irmã) para o Pico do Jaraguá, em São Paulo. No caminho de ida, sua irmã viu uma mulher chupando o pinto de um cara dentro de um carro parado no acostamento e isso deu início a um alvoroço, as crianças começaram a gritar e rir sem parar. Até que o seu Mario perguntou: "O que é que tem?" e explicou que todo mundo que namorava chupava pinto, o que não fazia o mínimo sentido para a lógica infantil. O fim é mais tragicômico ainda. (Dá para ler uma versão ligeiramente diferente do livro aqui no Estadão).

Foi muito bacana ter lido essas crônicas porque me fez lembrar que muitas coisas não têm a mínima lógica quando somos crianças - e que muitas outras continuam sem sentido mesmo depois que crescemos. 

sábado, 15 de julho de 2017

Cinco meses depois e continuo viva

Já se passaram cinco meses desde o meu último post.

Tentei escrever esse post mentalmente várias vezes, para depois ficar mais fácil quando viesse aqui - em vão. Não sabia o que dizer e nem se havia algo significativo a dizer.

Bom, vou resumir o que aconteceu nesse tempo em que estive ausente: 

A cirurgia em fevereiro correu bem. Meus pais estavam muito apreensivos; eu estava muito tranquila. Me passou pela cabeça várias vezes que eu poderia morrer na mesa de cirurgia ou por complicações posteriores, mas concluí que, se isso acontecesse, seria um alívio, pelo menos eu não precisaria mais me preocupar com absolutamente nada, o que me dava uma sensação de paz incrível, por outro lado, eu queria sobreviver porque preciso conhecer Tóquio e Praga e também fazer aquela oficina literária em Porto Alegre. Acontece que a cirurgiã, a dra. Beatriz, é excelente, tudo correu bem, e ela vai ser minha médica para sempre - vou precisar consultá-la de tempos em tempos para ver se está tudo bem.

A recuperação da cirurgia foi um pouco difícil, porque fiquei pelo menos umas duas semanas sem conseguir falar nem comer direito (por causa dos pontos na língua, que foi cortada para a retirada do tumor). Agora já estou comendo quase tudo e falando normalmente.

Antes da cirurgia, só lembro de uma médica auxiliar colocando a máscara de oxigênio em mim e da picada do anestesista, depois foi como se eu tivesse morrido por algumas horas. Não lembro de nada. Só lembro que, ao voltar da anestesia geral, em uma sala para recuperação pós-cirúrgica, eu estava literalmente trincando os dentes de frio e com vontade de fazer xixi. Me perguntava por que ninguém me dava mais cobertores (eu estava com um, mas parecia estar completamente nua no Polo Norte) e sussurrei para a enfermeira que precisava ir ao banheiro, ela não entendeu, aí falei: "xixi", ao que ela respondeu que ali não havia banheiro e que me traria a comadre - um tipo de penico grande. Ela baixou minha calcinha descartável, colocou a comadre embaixo do meu traseiro e demorei para fazer xixi ali, por mais que estivesse apertada. Mas uma hora saiu. Que alívio.

Uma semana depois da cirurgia voltei ao consultório da dra. Beatriz e ela disse que eu precisaria fazer 30 sessões de radioterapia "preventiva" e avisou que isso seria muito mais difícil que o período pós-cirúrgico. Confesso que não levei muito a sério, porque o período pós-cirúrgico já estava sendo muito ruim. Não sabia como a radioterapia poderia ser pior. (Mas foi.)

Entre o período de recuperação da cirurgia e o início da radioterapia, tive uma semana sossegada - até comi um hambúrguer no Sujinho quando quase todos os meus pontos da língua haviam caído! E as duas primeiras semanas de radioterapia também foram muito tranquilas, depois as coisas começaram a piorar. Um dia, depois do trabalho, quando fui comer um pão de queijo, parecia que tinham esquecido de colocar sal nele. No dia seguinte, perdi o paladar, o que foi bem bizarro (aliás, até agora, quase não sinto o gosto das coisas - mas, segundo as médicas e dentistas, o paladar vai voltar). Na terceira semana, começaram a aparecer as mucosites na boca e na língua - umas "aftas" que depois ficaram gigantes e muito doloridas, mas a dentista e as médicas já haviam dito que isso aconteceria e era normal -, além de uma dor de garganta que não passava. Depois disso as coisas foram ficando cada vez piores até se tornarem um pesadelo. Tinha dias em que eu não conseguia comer nada e mal bebia água (qualquer coisa que passasse pela garganta parecia uma lâmina da Gilette, sem exageros). A semana mais assustadora foi quando perdi cinco quilos. A médica oncologista que acompanhou meu tratamento receitou corticoides, entre outros medicamentos, para aliviar a dor e para eu parar de perder peso, mas tinha hora em que eu só queria morrer para não sentir mais nada.

Durante o período da radioterapia, que durou quase dois meses, a Yuri me levava para o hospital e depois para a dentista, onde eu fazia sessões de laserterapia, que amenizavam os efeitos da radiação - ou vice-versa: primeiro íamos à dentista e depois ao hospital. As sessões de rádio eram de segunda a sexta, menos nos feriados e quando a máquina quebrava ou dava algum outro problema. 

No fim do tratamento, tinha emagrecido quinze quilos, o que foi ótimo, considerando que eu queria e precisava perder vários quilos mesmo. Foi uma das únicas coisas boas que aconteceram nesse período. Agora me sinto melhor, mais bonita, mais saudável e não "deformada" pelos quilos a mais - quando me olhava no espelho, era assim que me sentia: deformada. E, com isso, também recuperei MUITAS roupas que não estavam servindo, até uma calça 38 (nem acreditei), o que me deixou feliz, pois agora vou ter mais opções do que vestir sem precisar gastar.

Ainda sinto os efeitos da radiação, como um pouco de dor de garganta às vezes e um leve enrijecimento do lado esquerdo do pescoço, perto da cicatriz (como a dra. Beatriz fez um corte para retirar os linfonodos, porque não dava para saber se o câncer da língua havia se espalhado, fiquei com uma cicatriz temporária de uns 20 centímetros que começa atrás da orelha e desce até o meio do pescoço - no fim, os linfonodos estavam limpos, a doença não havia se espalhado). Segundo a médica, depois essa cicatriz vai sumir, mas não posso tomar sol sem protetor solar ou lenço/ cachecol, para não ficar com a marca da cicatriz. Preciso dizer que a dra. Beatriz fez um ótimo trabalho no "acabamento final", deve ter usado alguma técnica de cirurgia plástica, porque a cicatriz não parece uma cicatriz do Frankenstein. Acho que as pessoas se impressionam quando batem o olho no meu pescoço, porque a cicatriz é grande, mas não me incomodo quando me olho no espelho. E se a cicatriz fosse permanente, não ficaria deprimida nem nada. Afinal, cicatrizes fazem parte da vida, certo? Algumas são aparentes, outras, não.

De importante, semana passada formalizei minha saída da editora. Faltam algumas burocracias, mas o principal está feito. Me senti grata pelo fim de um ciclo, e também feliz e aliviada, porque agora vou ter um tempo para mim, para poder pensar, fazer o que quero, aprender coisas novas, me reestruturar e renascer de alguma forma.

Os últimos meses foram estranhos, como se eu estivesse num mundo paralelo. As pessoas continuavam a viver suas vidas, a fazer o que precisava ser feito, trabalhar, estudar, se divertir, namorar, enfim, coisas triviais que compõem a vida de uma pessoa normal, enquanto eu estava vivendo no meu próprio tempo, sendo irradiada, suportando dores, querendo morrer, querendo viver, querendo parar de sentir, mas consciente de que o que eu estava vivendo naquele momento, mais tempo, menos tempo, seria passado.

Para passar o tempo e talvez para suprir minha fome (por semanas, senti meu estômago roncar várias vezes ao longo do dia e vivi em estado de fome constante, embora não conseguisse comer quase nada), vi muitas séries gastronômicas e documentários relacionados à comida na Netflix. Alguns documentários eram sobre a influência da alimentação na qualidade de vida das pessoas e como a falta de tempo nos faz comer um monte de porcarias industrializadas, basicamente gordura, sal e açúcar, calorias vazias de nutrientes. A partir daí, decidi preparar refeições mais saudáveis e, assim que me recuperei, coloquei esse plano em prática. Também decidi adotar uma alimentação mais vegetariana e comer algum tipo de carne, no máximo, uma vez por semana. Lembrei que quando era adolescente tentei ser vegetariana, mas como era minha mãe que cozinhava, era difícil, parecia "frescura" minha, fora ouvir os absurdos que as pessoas me falavam, que eu ia ficar doente se não comesse carne, que era idiota da minha parte ter dinheiro para comprar carne e não comer carne e coisas desse tipo (fato: a ignorância e a falta de respeito das pessoas não têm limites). Acho que instintivamente, já naquela época, eu sabia o que era melhor para mim. Só que agora é diferente: eu cozinho e posso fazer escolhas melhores. Além da alimentação, agora tenho tempo e ânimo para fazer minhas caminhadas, então estou tentando caminhar todos os dias mais ou menos duas horas por dia. Queria emagrecer mais uns quilos, mas preciso dar um tempo para o meu organismo se recuperar totalmente da radiação primeiro.

Se a minha visão de vida mudou por conta do câncer? Acho que sim. A proximidade da morte me fez pensar mais na vida. E já que continuo viva, vou cuidar melhor de mim e ir atrás do que importa, vou tentar aproveitar o tempo que me resta da melhor forma e ser feliz como for possível. Senti isso tudo como um "chacoalhão" para acordar. Eu estava me esgotando mental e fisicamente por coisas sem sentido, mas agora chega, já entendi, vou mudar a rota - e o ritmo. Vou tentar encontrar o caminho do meio e prestar atenção para não me perder de novo.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

"Estou com câncer, me paga um sorvete?"

Descobri que estou com um carcinoma, um tipo de câncer, na língua no fim do ano passado. Uma consulta médica no começo desse ano confirmou o resultado da biópsia, o médico me orientou a procurar hospitais especializados em tratamento de câncer, e é isso.

Não sei se minha mente estava tentando me distrair da seriedade do problema, mas uma das coisas em que pensei logo após o diagnóstico foi: queria ver a reação das pessoas se eu chegasse perto delas e falasse "Estou com câncer, me paga um sorvete?" [Porque todas as minhas economias foram gastas com tratamento e não tenho mais como comprar as coisas que eu adoro...]. Seria engraçado ver o choque estampado na cara de estranhos... que provavelmente me pagariam um sorvete.

Não sou muito de chorar e de ficar me lamentando, mas chorei um dia, porque pensei que fosse morrer logo. E o pior não era o fato de morrer, era o fato de morrer sem ter feito quase nada do que eu realmente queria na vida - isso, sim, seria trágico. Não tenho medo de morrer, mas queria viver um pouco mais para sentir que minha vida valeu a pena.

Resumindo tudo, consultei alguns médicos, fiz vários exames e, por sorte do destino, um colega de trabalho indicou a médica com quem ele tinha se tratado do mesmo problema. Acompanhada dos meus pais e da Yuri, fui para a consulta no fim do mês passado, gostei muito da médica, senti confiança e empatia. Nessa mesma consulta, decidimos marcar a cirurgia para extrair o tumor e fazer o "esvaziamento cervical" ("limpeza" de linfonodos na área do pescoço para evitar que a doença volte ou se espalhe, pelo que entendi) para amanhã. 

Para piorar meu estado de ânimo, dia 17/01 saiu o resultado da oficina literária que eu queria fazer em Porto Alegre e fui selecionada... só que logo me dei conta de que eu não teria condições de ir para lá esse ano. Chorei de novo. Foi uma das coisas mais frustrantes da minha vida e senti um profundo desalento porque esse ano não ia ser nem um pouco como eu havia planejado. Amigos sugeriram que eu perguntasse se não seria possível reservar a vaga para o ano que vem, dadas as circunstâncias. A assistente do professor foi superlegal e conversou com ele - e minha vaga ficou reservada para o ano que vem (vou agradecer muito a ela pessoalmente depois). Aí quero ficar boa logo e fiquei desejando que esse ano passe logo também.

Coincidentemente, alguns meses antes de receber o resultado da biópsia, eu tinha A lição final, de Randy Pausch, baseado em sua última palestra na Carnegie Mellon University, onde ele era professor. Randy foi diagnosticado com câncer (dez tumores no fígado) e só tinha mais alguns meses de vida. Ele era casado e tinha três filhos pequenos. Como planejar os últimos meses de vida sem se deixar abater?, eu ficava pensando durante a leitura.


Lembrei dele ao ter mais consciência da minha doença. O que eu faria se tivesse mais seis ou sete meses de vida? E por que não fiz nada disso ANTES? 

Primeira grande lição do ano e para a vida: não tenho controle de nada. Tudo que eu quiser fazer e sentir que vale a pena, preciso fazer o mais rápido possível. O amanhã é só uma promessa. Ou, nas palavras de Randy Pausch:

Pergunte a si mesmo: está gastando tempo com as coisas certas? Talvez você tenha causas, objetivos, interesses. Eles merecem seu esforço?

Apesar de ter lido artigos afirmando que alguns pacientes "jovens" (estou com 36 já) morriam entre dois e cinco anos após o diagnóstico, os médicos disseram que as chances de cura, no meu caso, são grandes, apesar de não haver muitos estudos ainda. É que o carcinoma é mais comum em homens acima dos 60 anos que fumam e bebem. Os médicos disseram que isso pode ter sido desencadeado por estresse/ baixa imunidade, mas que não dava para saber ao certo.

Não sei quanto tempo ainda vou viver, mas a perspectiva de que o ano que vem será melhor do que esses últimos me dá ânimo.

Assim que possível vou atualizando este blog.


terça-feira, 17 de janeiro de 2017